E esse dólar, hein? [Resumo semanal 14/02]

E esse dólar, hein? [Resumo semanal 14/02]

Navegue por assunto


Por: Time Master Clear

14/02/2020 • Atualizado: 10/12/2021

5 minutos

Compartilhar:

Confira o que aconteceu no mercado na última semana (10/02 a 14/02) e quais são as perspectivas futuras

Se você minimamente acompanha os jornais, sem dúvida nenhuma a manchete “Dólar renova máxima histórica” não está sendo novidade neste começo de ano.

Depois de iniciar próximo da faixa de R$ 4,00, a divisa norte-americana não parou sua valorização frente ao real e na quinta flertou com os R$ 4,40.

Mas o que explica esse salto de 10%?

Para entender esse movimento (e não viver na ilusão de dólar abaixo de R$ 4,00) é preciso falar sobre dois assuntos: i) carry trade; ii) queda de juros.

Se for para falar de ordem de influência, os juros possuem influência direta no carry trade, que, por sua vez, possui influência direta no câmbio.

Para montar esse quebra-cabeça vou explicar o básico do carry trade.

Tecnicamente falando essa operação consiste na arbitragem (combinação) entre uma posição vendida em moeda com taxa de juro baixa e comprada em moeda com juro elevado.

Ou seja, o investidor pega dinheiro (posição vendida) em um mercado desenvolvido, como os EUA/Japão/UE cuja taxa de juro é extremamente baixa ou até negativa, para ganhar (posição comprada) no diferencial de juros.

Por exemplo: vamos supor que o investidor estrangeiro tomou emprestado euro, converteu os recursos em reais e comprou títulos públicos nos áureos tempos que a Selic rendia 1% ao mês.

Levando em conta que o juro na UE por muitas vezes operava com rendimento zero, ele lucrava sem muito esforço 1% ao mês levando em conta que a taxa de câmbio permanecesse dentro da sua faixa de hedge.

Obviamente a taxa de câmbio não ficava fixa, mas o grande fluxo de dólares na nossa economia por meio deste capital especulativo pressionava o real para baixo e deixava esse custo de hedge bem convidativo, ainda mais com esse diferencial de juro alta.

E assim foram longos anos até a reviravolta da política monetária e o processo de queda da Selic iniciado em outubro de 2016.

Com a queda da Selic esse diferencial de juros foi achatando e todo aquele fluxo de capital pesado, mas meramente especulativo para comprar título público, foi esvaindo e a “pedra” que até então travava o dólar foi removida.

A partir disso está montado o quebra-cabeça.

“Joga pedra na Geni”

Dentro da lógica apresentada é possível entender que a queda da Selic é um fator predominante para essa fraqueza do real frente ao dólar uma vez que afugenta o capital (especulativo) estrangeiro.

Tendo em vista que o Copom deixou bem claro em sua comunicação que o juro vai ficar por um bom tempo neste nível entre 4,25% e 5% ao ano (veja mais aqui), então a culpa do dólar alto é do Bacen? Obviamente que não!

Para começar a conversa o dólar está forte no mundo inteiro e especialmente contra os pares emergentes uma vez que a enxurrada de dólares na economia liderada pelos bancos centrais de países desenvolvidos, em especial pelo Fed (BC dos EUA), está mais próxima do fim do que um novo ciclo de década.

Outro ponto muito importante e que compete exclusivamente ao Brasil é atrair de fato capital estrangeiro produtivo, aquele capital focado em investimento e que ajuda na FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo), o que leva ao aumento da capacidade produtiva de uma economia.

Portanto, não será o Bacen martelando o dólar via intervenções no mercado de câmbio e queimando reserva internacional que a moeda vai cair. Na realidade as intervenções são apropriadas para conter excessiva volatilidade, não para criar faixa cambial, pois o foco da equipe econômica é outro: política fiscal.

Dito isso, enquanto não houver provas consistentes de crescimento econômico e a agenda de reformas não deslanchar (por isso a importância de uma boa articulação política), o investidor estrangeiro não vai colocar seu dinheiro no Brasil.

O passado desastroso do País após a crise do subprime ainda ecoa forte na memória (e no bolso).

Por isso, colocar a culpa no Paulo Guedes ou no presidente do BC, Roberto Campos Neto, pela alta do dólar é certamente um exercício de execração pública, o que faz lembrar do imortal verso da música Geni e o Zepelim de Chico Buarque, justamente o subtítulo deste texto.

Agenda econômica para semana que vem

A semana pré-carnaval promete ser bastante morna em termos de agenda econômica.

Na segunda será comemorado o Aniversário de Washington, com as bolsas fechadas por lá e reduzindo a liquidez pelo mundo. Na quarta será divulgada a inflação ao produtor (10h30) de janeiro e na sexta o PMI Industrial (11h45) de fevereiro.

Por aqui, além da temporada de resultados do quarto trimestre (calendário de divulgação) ganhando tração, vale ficar de olho na quinta para a divulgação do IPCA – 15 (9h00) de fevereiro, uma vez que serve como proxy do IPCA oficial que será publicado em 11 de março.