[xp_hellobar][/xp_hellobar]

O efetivo impacto da crise fiscal no mercado [Resumo Semanal 02/10]

O efetivo impacto da crise fiscal no mercado [Resumo Semanal 02/10]

Navegue por assunto


Confira o que aconteceu no mercado na última semana (28/09 a 02/10) e quais são as perspectivas futuras

A queda de 4,8% do Ibovespa em setembro e o retorno para a faixa de 93 mil pontos pode ser atribuída em parte ao imbróglio da situação fiscal do governo.

O aumento do rombo das contas públicas é um problema e a reação do mercado as notícias prova isso. Porém, como digo por aqui, o mercado trabalha com expectativas e quando falamos especialmente em aspectos macro/político ficar operando notícia é como se estivesse pagando a conta.

Por isso é importante ter as ferramentas certas na mão para monitorar o humor do mercado e tomar sua decisão de alocação com base em números, não no calor da emoção de uma notícia. Neste sentido, esse texto será bem denso e dedicado para explicar o efetivo impacto da crise fiscal no mercado.

Antes, um disclaimer bem importante: essa é a forma como EU penso na hora de tomar minhas decisões de investimento para agregar os efeitos macro/político sem ficar no achismo. Existem outros tipos de interpretação ou análise para encontrar prêmio de risco, assim como discussões infinitas sobre sua utilização. Não estou aqui para discutir o certo ou errado, mas sim trazer uma alternativa de interpretação o menos viesada possível. No fim é questão de interpretação dos dados e cada um tem a sua.

Dito isso, quando falamos de questão macro/político a melhor maneira de colocar isso na conta é através do mercado de juros. Ali estamos falando do consenso do mercado e acredito que traçar uma estratégia com base nele é muito mais racional do que eu ficar tentando achar uma interpretação política dos fatos ou até mesmo tentar formular projeções macro que envolvem econometria.

Quando há um fator político ou uma situação macro que o mercado considera relevante (nas duas citações) essa expectativa é diretamente absorvida pela curva de juros. Se as perspectivas são boas, há uma redução da curva e vice-versa. Isso é importante quando estamos falando de precificação de ativos de renda variável pois influencia diretamente taxa livre de risco.

A taxa livre de risco, como o próprio nome diz, é uma taxa de rendimento de um investimento sem risco e que dentro dos modelos financeiros têm como padrão os títulos públicos vide que os rendimentos são baseados na taxa básica de juro.

A taxa livre de risco é importante pois compõe a fórmula do CAPM (Capital Asset Pricing Model), que é o modelo de precificação de ativos financeiros mais utilizado em finanças. Em pouquíssimas palavras o CAPM mostra o retorno mínimo para investir naquela empresa / custo do capital próprio (Ke).

Esse retorno esperado do investimento é = taxa livre de risco + o beta da ação x o prêmio de risco de mercado que é uma subtração entre o retorno esperado do mercado e a própria taxa livre de risco. Como pode-se observar pela fórmula, o aumento da taxa livre de risco impacta diretamente no aumento da exigência do retorno mínimo e no aumento do Ke que no final das contas são da mesma derivada. Em termos práticos: esse aumento reduz o potencial de valorização da ação (upside).

Entendido o impacto da taxa livre de risco no CAPM e a função do modelo para o universo financeiro (precificação de ativos), vamos voltar ao começo do texto quando disse que a curva de juros é o melhor maneira de precificar fatos políticos/macro, pois é através da curva de juros que a taxa livre de risco é calculada e isso é “mágico” uma vez que está se tomando risco ao se investir. Ou seja, não se investe sem entender o nível de risco e a resposta está inclinação da curva de juros.

Lembra que “se as perspectivas são boas, há uma redução da curva e vice-versa”, para identificar esse movimento e responder a pergunta de como a abertura/fechamento da curva afeta o mercado existem duas alternativas: i) NTN-B (Tesouro IPCA+) com dados retirados do site do Tesouro; ii) DI Futuro que qualquer plataforma gráfica possui.

Os times de análise utilizam a primeira alternativa (juro real) em vista da modelagem que precisa ser a mais precisa possível e não considerar a inflação para descontar no fluxo de caixa é um erro.

Como a minha ideia é entender direção de mercado e não precificar ativo ou mesmo qual o upside/downside potencial da mudança da curva utilizo os juros futuros como métrica para a taxa livre de risco. É um método mais simples, mas que no final das contas responde minha pergunta: como está o nível de propensão ao risco do mercado.

Como acredito ser muito difícil prever qualquer coisa em um horizonte de mais de 5 anos tomo como base o juro futuro de 5 anos e que no caso seria o DIF25. Se pegarmos desde o começo de agosto, quando bateu 5,20, até o nível atual de 6,60 houve uma inclinação positiva de 140 pontos-base, ou seja, um forte crescimento na exigência de retorno mínimo para investir/Ke e uma redução no potencial de valorização.

Portanto, com o Ibovespa em região de topo em agosto + problemas com o fiscal em vista dos gastos com a pandemia + curva empinado para cima desde agosto com copom sinalizando fim do ciclo de cortes = não existia uma assimetria positiva entre risco x retorno para encher a mão.

Essa é a interpretação que utilizo para entender os efeitos macro/político no mercado com o menor viés possível. 

Depois de tudo isso, tenho certeza que você se perguntou: vai cair até quando? é para comprar? Para responder essa pergunta você precisa encontrar o Ke e descontar no fluxo de caixa na perpetuidade para encontrar o downside. Eu prefiro usar essa ferramenta não para encontrar A resposta correta, mas sim como um importante guia na hora de tomar a decisão de compra/venda.

Entender sobre como a curva de juros impacta na precificação dos ativos e avaliar os níveis de preço + análise técnica de ações + fundamentos e múltiplos da empresa = ajuda muito na tomada de decisão. Não existe fórmula mágica e análise é um processo de interpretação + reunião de informações, por isso encontre uma maneira que consiga organizar sua linha de pensamento e deixar de lado as emoções.