Tic-tac do risco fiscal [Resumo Semanal do Mercado Financeiro]

Tic-tac do risco fiscal [Resumo Semanal do Mercado Financeiro]

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Por: Time Master Clear

12/02/2021 • Atualizado: 11/12/2021

5 minutos

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Confira o que aconteceu no mercado na última semana (08/02 a 12/02) e quais são as perspectivas futuras

Um conceito muito importante na hora de investir é entender o risco que se está tomando e quando falamos de Brasil o risco fiscal é uma variável fundamental no escopo da análise.

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Sendo bem sucinto na explicação, o risco fiscal seria a dúvida do mercado sobre a capacidade do governo em honrar suas dívidas + risco de descontrole das contas públicas. Ou seja, é uma mistura de probabilidade de calote com falta de gestão para frear o endividamento, o que engloba controle de custos e capacidade de renda.

Esse não é um tema novo para a economia brasileira, que desde 2014 vive com essa espada na cabeça, mas o caldo engrossou forte no ano passado com os gastos públicos para conter a pandemia e que elevou consideravelmente as projeções para a dívida do governo:

Gráfico de projeções de dívida bruta do governo geral e dívida líquida do setor público

Fonte: Tesouro Nacional

Assim como um banco cobra uma taxa maior de um cliente com histórico de inadimplência, o mercado cobra um prêmio maior para colocar seu dinheiro em um país nesse tipo de situação.

E daí que vem a manchete: “Ibovespa recua forte com aumento do risco fiscal”. Pois, naquele determinado nível de preço, os investidores não vislumbram um risco x retorno atrativo e mudam de mercado ou realizam lucro até um ponto que encontram um risco x retorno compatível.

A forma mundialmente reconhecida para medir o risco de calote de um país é o CDS (Credit Default Swap), sendo quanto menor for o risco de inadimplência do país, menor será a pontuação correspondente do CDS, ou seja, mais próxima de zero. Logo, quanto maior for o risco de calote, maior também será a pontuação do título.

Outra forma de avaliar o nível de propensão ao risco do mercado é entender a dinâmica da curva de juros. De uma forma muito resumida, um aumento da curva de juros impacta na taxa livre de risco, que por sua vez eleva o nível de retorno exigido nos modelos de precificação de ações, e, por consequência, reduz o potencial de valorização do ativo alvo — ficou confuso? Clique aqui para entender mais.

Como a minha ideia é entender direção de mercado e não precificar ativo ou mesmo qual o upside/downside potencial da mudança da curva utilizo os juros futuros como métrica para a taxa livre de risco. É um método muito mais simples que o CDS, mas que no final das contas responde à minha pergunta: como está o nível de propensão ao risco do mercado.

Preocupação atual

Feita introdução do porque todo Fechamento de Mercado relaciono curva de juros e risco x retorno, vamos falar um pouco do atual cenário fiscal e como isso pode acelerar a inclinação positiva da curva de juros, ou seja, reduzir o apetite ao risco do investidor.

No final do ano passado/começo de 2021, quando a bolsa renovou o topo histórico e atingiu 125 mil pontos, as sinalizações do governo eram firmes sobre a responsabilidade fiscal e o compromisso com o teto de gastos mesmo em meio à pandemia.

Porém, de meados de janeiro até o momento, o discurso mudou radicalmente e seu ápice (até então) foi nesta semana com Paulo Guedes, um dos principais defensores da manutenção da responsabilidade fiscal, afirmar que vai precisar de uma nova “PEC da Guerra” com uma cláusula de calamidade pública para financiar o auxílio.

Na quinta, Bolsonaro já cravou que o auxílio vai sair e trabalha com o cenário de 4 parcelas (não 3 como dito inicialmente) e o valor pode chegar aos R$ 250. Colocando na ponta do lápis, temos um custo de R$ 30 bilhões na mesa e até agora sem nenhuma contrapartida de receita ou controle de gastos, apenas frases que o Pacto Federativo (regras de responsabilidade fiscal) será contemplado.

Em suma: a solução que está sendo desenhada deve resultar no furo do teto de gastos e aumento do rombo fiscal. Eu, sinceramente, espero que o auxílio venha com uma PEC de Guerra embutida no Pacto Federativo, mas as sinalizações do Congresso são de muita urgência, pouco planejamento fiscal.

O que pode-se ver essa semana e que chamou atenção para o lado negativo quando olhamos o rumo do fiscal é que o governo está consciente e não mede esforços para entregar um novo auxílio emergencial, mas aparentemente ninguém, nem mesmo o lado da economia, está preocupado na contrapartida de receita ou redução de gastos.

E uma coisa ficou bem clara também nesta semana: a vitória esmagadora do Centrão sobre a independência do BC gera ainda mais preocupação sobre medidas totalmente políticas.

Quando olhamos a curva de juros, ela já reflete essa preocupação com a situação fiscal atual, o que não pode ser dito do Ibovespa, que, comparativamente ao começo do ano, está trabalhando em um cenário de juros sem prêmio de risco.

A questão para ser respondida é: quem deve sofrer o ajuste? Quando observo a curva de juros, não vejo potencial de queda, somente manutenção do nível atual ou potencial de alta por todo cenário político que está sendo desenhado.

Por isso, na minha opinião, o nível de risco x retorno aos 120/125 mil pontos está longe de ser atrativo e alguém futuramente vai sofrer um ajuste. Como não tenho bola de cristal, tomo as decisões com base no risco observado e ele cresceu nesta semana com essas declarações.